
Texto por: Dra. Carolina Silva
Instituída pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2015, a data de hoje tem como objetivo reconhecer o papel fundamental das mulheres no desenvolvimento científico e enfrentar a histórica desigualdade de gênero na área.
Embora iniciativas político-governamentais e movimentos da sociedade civil sejam essenciais para dar visibilidade ao tema, inúmeros desafios práticos do dia a dia ainda persistem e dificultam a real equidade entre homens e mulheres no campo científico.
Na pesquisa clínica, essa desigualdade se manifesta de forma estrutural ao longo da carreira, com diferenças no acesso a financiamento, sub-representação feminina em cargos de liderança, viés na avaliação de produtividade — especialmente em trajetórias atravessadas pela maternidade e pelo cuidado — além de menor visibilidade e reconhecimento acadêmico.
Essa assimetria não impacta apenas as trajetórias profissionais das mulheres, mas também a qualidade da própria ciência produzida.
Ambientes científicos homogêneos tendem a formular perguntas mais limitadas, desenhar estudos menos sensíveis às diferenças biológicas e sociais e interpretar dados de forma menos abrangente.
Promover equidade, portanto, não é apenas uma pauta de justiça, mas um compromisso com uma ciência mais robusta, responsável e alinhada às necessidades reais da população.
No entanto, discutir paridade de gênero na pesquisa é também refletir sobre como queremos viver e sustentar nossas carreiras ao longo do tempo. Modelos rígidos de produtividade, baseados em disponibilidade irrestrita e linearidade, ignoram que a vida acontece e que cuidar, gestar, apoiar e atravessar fases faz parte da experiência humana.
Para muitas mulheres, conciliar ciência e vida pessoal ainda implica escolhas difíceis e silenciosas. Repensar critérios de avaliação, trajetórias profissionais e ambientes de trabalho mais flexíveis não fragiliza a ciência — ao contrário, torna-a mais ética, mais real e mais sustentável.
Avançar nesse caminho exige também reconhecer e valorizar competências que as mulheres historicamente trazem para a prática científica e que, por muito tempo, foram invisibilizadas. Intuição, empatia, escuta, comunicação cuidadosa, criatividade, afeto e zelo no cuidado não se opõem ao rigor científico — especialmente na pesquisa clínica, onde pessoas estão no centro.
Neste 11 de fevereiro, celebrar as mulheres na ciência é reconhecer a força de quem permanece, transforma e produz conhecimento com sensibilidade e excelência. Que nenhuma mulher precise escolher entre ser inteira como pessoa ou excelente como cientista. Hoje celebramos conquistas, mas reafirmamos, sobretudo, o direito de pertencer, contribuir e liderar.
Por fim, que esta data também seja um compromisso com as meninas que hoje observam, perguntam e sonham. Que elas possam crescer vendo mulheres ocupar espaços, liderar pesquisas e construir conhecimento sem precisar se apagar para caber. Que encontrem referências diversas, caminhos possíveis e a certeza de que curiosidade, sensibilidade e inteligência caminham juntas. Investir nas meninas na ciência é semear um futuro mais justo, mais inovador e profundamente mais humano.



