
Texto por: Caroline Manzan
Depois de mais de 25 anos trabalhando em pesquisa clínica, existe uma frase que me causa certo desconforto. Depois de entrevistar centenas de profissionais, já ouvi algumas vezes: “eu já aprendi tudo sobre isso”.
Não porque a experiência não importe. Muito pelo contrário. A experiência é uma das ferramentas mais valiosas que construímos ao longo da carreira. Ela nos ensina a antecipar problemas, reconhecer padrões e tomar decisões melhores. Mas existe uma diferença enorme entre ter experiência e acreditar que já chegamos a algum lugar onde não precisamos mais aprender.
E talvez essa seja uma das maiores armadilhas de uma carreira longa. Porque chegar nesse lugar é uma ilusão.
Na pesquisa clínica, isso se torna muito evidente. Mudam as regulamentações, as tecnologias, os desenhos de estudos, as expectativas das agências regulatórias, a forma como olhamos para risco, qualidade e dados. Mudam também os participantes, os centros de pesquisa e a maneira como trabalhamos.
A própria evolução do ICH-GCP ao longo dos anos é um ótimo exemplo. Quem aprendeu pesquisa clínica há vinte anos e continua executando os mesmos processos, da mesma maneira, simplesmente porque “sempre fez assim”, provavelmente não acumulou vinte anos de experiência, mas repetiu algumas vezes o mesmo ano de experiência.
E existe uma diferença importante entre essas duas coisas.
Estar atualizado, portanto, não significa apenas fazer treinamentos obrigatórios ou acompanhar uma nova regulamentação quando ela entra em vigor. Significa desenvolver uma inquietação permanente sobre a maneira como trabalhamos.
Por que fazemos assim?
Esse processo ainda faz sentido?
Existe uma maneira melhor, mais simples ou mais eficiente de alcançar o mesmo objetivo sem comprometer qualidade, segurança ou integridade dos dados?
Essas talvez sejam algumas das perguntas mais importantes que um profissional experiente pode continuar fazendo.
E é justamente aqui que entra um aspecto sobre o qual falamos pouco: o ambiente no qual esse profissional está inserido.
Não basta esperar que as pessoas se mantenham atualizadas somente com estudo individual. Bons profissionais precisam estar em ambientes que estimulem aprendizado, discussão e pensamento crítico. Ambientes onde seja possível questionar processos sem que o questionamento seja interpretado como uma afronta ao sistema. Onde erros possam gerar aprendizados. Onde diferentes experiências possam ser colocadas à mesa.
Organizações maduras não deveriam apenas treinar seus profissionais para seguir processos. Deveriam estimulá-los a entender, desafiar e melhorar esses processos continuamente.
Isso é especialmente importante em pesquisa clínica porque qualidade não deveria ser resultado apenas de seguir processos. Qualidade também nasce da capacidade de aprender.
Talvez por isso eu tenha aprendido, ao longo desses anos, a desconfiar um pouco da sensação de conforto profissional. Na prática, isso sempre se traduziu na participação de cursos, workshops, eventos, conversas, brainstormings e, acima de tudo, na abertura para novas interpretações, definições e conclusões. Mesmo chegando a novas conclusões, sabia que essas seriam válidas por um tempo limitado.
Quando começamos na carreira, sabemos que não sabemos. Perguntamos, estudamos, buscamos referências, ouvimos profissionais mais experientes. Com o tempo, adquirimos conhecimento e confiança. O risco começa quando a confiança deixa de ser sustentada pela curiosidade. Considero a curiosidade uma das competências essenciais para o profissional de pesquisa clínica.
Porque, quanto mais experientes nos tornamos, maior deveria ser nossa responsabilidade de continuar aprendendo.
Hoje temos inteligência artificial entrando nos processos de desenvolvimento clínico, novas formas de geração e análise de dados, estratégias descentralizadas, tecnologias digitais, novas abordagens regulatórias e uma discussão cada vez mais sofisticada sobre qualidade baseada em risco. É impossível imaginar que aquilo que aprendemos cinco, dez ou vinte anos atrás seja suficiente para responder sozinho às perguntas de hoje.
E provavelmente aquilo que sabemos hoje também não será suficiente para responder às perguntas de amanhã.
Talvez, então, uma carreira bem-sucedida não deva ser medida apenas pelo quanto conseguimos avançar, pelos cargos que ocupamos ou pelo número de estudos que conduzimos.
Talvez ela também deva ser medida pela nossa capacidade de continuar curiosos. De continuar estudando. De continuar fazendo perguntas. De continuar cercados por pessoas que sabem coisas que nós ainda não sabemos.
E, principalmente, de continuar tendo coragem para olhar para algo que fazemos há muitos anos e dizer: “Funciona. Mas será que ainda é a melhor maneira?”
Porque, em pesquisa clínica, no dia em que acreditarmos que finalmente chegamos, talvez seja exatamente o momento em que começamos a ficar para trás. Essa é a armadilha.



